
Aprender a lidar com a frustração, respeitar limites e reconhecer os sentimentos do outro faz parte do desenvolvimento infantil e exige orientação dos adultos, tanto para crianças típicas quanto atípicas
Dizer ‘não’ também é uma forma de dizer ‘eu cuido de você’. Na infância, aprender a lidar com a frustração é tão importante quanto sentir-se amado e acolhido. Para a psicóloga Fernanda Martins, à frente da unidade curitibana da Espaço Rodrigo Brivio & GêDois, estabelecer limites não significa reduzir o afeto, mas oferecer à criança referências para que ela desenvolva segurança, autonomia e habilidades sociais.
Na rotina acelerada das famílias, o desejo de compensar a ausência pode levar pais e mães a cederem mais do que gostariam. O resultado, muitas vezes, é a dificuldade de sustentar regras justamente quando a criança mais testa seus limites. “Os pais estão confundindo muito ‘dar limite’ com ‘deixar fazer tudo’. Para compensar essa ausência, quando chegam em casa, acabam cedendo tudo, achando que os filhos vão deixar de amá-los caso coloquem limite, digam não ou os frustrem”, afirma Fernanda.
“O limite funciona como uma referência de segurança. A criança se sente amada e protegida através do limite. É isso que passa segurança para ela. Quando o pai diz não e sustenta esse não, mostra que tem palavra e cumpre o que fala”, pontua da psicóloga. Segundo ela, o desafio, portanto, não está apenas em dizer ‘não’, mas em mantê-lo mesmo diante do choro, da birra ou da insistência. “É preciso ter estratégia para manter o limite e suportar o choro”.
Esse aprendizado está diretamente ligado à empatia. Antes de compreender o sentimento do outro, a criança precisa aprender a reconhecer o próprio mundo emocional. “Primeiro ensinamos a criança a identificar as emoções. A partir do momento que ela consegue reconhecê-las, começamos a trabalhar a capacidade de se colocar no lugar do outro”, explica.
Aprender a conviver
Esperar a vez, negociar, dividir, pedir desculpas, aceitar mudanças e encontrar alternativas quando algo não acontece como esperado são competências construídas pouco a pouco. “A criança precisa aprender que nem sempre as coisas acontecem como ela gostaria. Então, ela vai desenvolvendo estratégias para negociar, ceder, encontrar alternativas, pedir desculpas e reparar quando machuca alguém”, observa Fernanda.
Esse processo, no entanto, não acontece da mesma maneira para todas as crianças. Enquanto muitas aprendem habilidades sociais observando e imitando os adultos, outras precisam de ensino mais direto, repetição e mediação. “A criança típica aprende naturalmente através da observação e da imitação. Já a criança atípica, por ter dificuldades de percepção, imitação, contato visual e empatia, precisa ser ensinada”, afirma.
Por isso, antes de cobrar empatia, comunicação ou autonomia, é necessário construir as bases dessas habilidades. Atenção, regulação emocional, tolerância a pequenas mudanças e capacidade de permanecer em uma atividade são alguns dos primeiros passos. Comunicação também não significa necessariamente falar. “Gestos, olhares, apontar e recursos de comunicação alternativa podem ajudar a criança a expressar desejos, necessidades e sentimentos”.
Birra ou crise?
Entender o que está por trás de um comportamento difícil pode mudar completamente a reação dos adultos. Nem todo choro, grito ou explosão emocional é uma birra. Na birra, geralmente existe uma intenção, a criança quer conseguir alguma coisa. Já uma crise pode ocorrer quando a criança está sobrecarregada emocional, sensorial ou cognitivamente. “Uma pergunta ajuda muito: essa criança está tentando conseguir alguma coisa ou está sem recursos para lidar com o que está acontecendo?”, orienta.
A diferença também muda a conduta dos pais. Durante uma crise, não é hora de dar sermão, exigir obediência ou tentar ensinar uma lição. O primeiro objetivo é recuperar a segurança e a regulação. Fernanda enfatiza que “durante uma crise, o principal objetivo dos pais não é ensinar, corrigir ou fazer a criança obedecer naquele momento. É ajudá-la a recuperar a regulação e manter a segurança”. Depois que a criança se acalma, abre-se espaço para conversar, nomear o que aconteceu e ensinar outras maneiras de lidar com a frustração. “Não é hora de ensinar uma lição. É hora de oferecer segurança e ajudar a criança a recuperar o controle do próprio sistema”.
Acolher sem ceder
Acolher uma emoção não significa permitir qualquer comportamento. Uma criança pode sentir raiva, tristeza ou frustração, mas precisa aprender que esses sentimentos não autorizam agressões ou desrespeito. “A criança pode sentir raiva, frustração ou tristeza. O sentimento pode ser acolhido; o comportamento inadequado pode ter limite”, resume. A consistência é parte essencial desse processo. Se o adulto estabelece uma regra e muda de ideia depois de gritos ou insistência, a criança pode aprender que aumentar a intensidade do comportamento é uma maneira de conseguir o que quer. O objetivo, porém, não é vencer uma disputa. “Eu posso acolher a sua frustração sem entregar aquilo que você está pedindo”.
A mesma lógica vale para a empatia. Quando uma criança não consola alguém ou parece indiferente ao sofrimento do outro, concluir que ela ‘não tem empatia’ pode ser precipitado. É preciso investigar em qual etapa está a dificuldade: perceber a emoção, compreender o que o outro sente ou saber como responder. E as oportunidades de aprendizado estão justamente nas situações cotidianas. Brincar com outras crianças, conversar, esperar, negociar e resolver pequenos conflitos são experiências que ajudam a desenvolver competências sociais. “Quando duas crianças brincam juntas, elas precisam negociar, esperar, se adaptar, comunicar, lidar com a frustração, interpretar o sentimento do outro e resolver conflitos. É justamente esse treino que vai construindo a competência social”.
Para crianças que precisam de maior mediação, essas experiências podem exigir ensino explícito e repetição. O princípio, porém, é o mesmo: educar não é controlar a criança, mas ajudá-la a desenvolver recursos para, gradualmente, controlar a si mesma. “Essa construção em uma combinação que pode transformar a relação entre pais e filhos. Limite saudável não é simplesmente dizer ‘não’. É estabelecer o limite, acolher a emoção, manter a regra e ensinar uma alternativa. É essa combinação que transforma o limite em educação, em vez de transformá-lo em uma batalha de poder”, conclui.
Serviço – Rodrigo Brivio & GêDois Curitiba
Endereço: Rua Jacarezinho, 485, Mercês
Informações: (41) 99630-8202
Instagram: @rodrigobriviocuritiba
Site: https://rodrigobrivio.com.br/