Consultor analisa cenário mundial com o Coronavírus

31 de março de 2020


No dia 23/03/2020, nós consultores da RAIZ editamos o primeiro boletim CORONAVIRUS, comentando sobre a natureza da crise e os impactos das medidas iniciais adotadas pelo governo Federal e por diversos governos estaduais. As medidas adotadas seguiam as orientações técnicas de infectologistas cuja principal estratégia no Brasil era de retardar o processo de contaminação e distribuir ao longo de um período em que os casos de tratamentos hospitalares pudessem ser acomodados dentro da capacidade de atendimento existente mais uma ampliação emergencial nas grandes capitais.

No dia 29/03/2020, um total de 4.256 infectados e 136 mortes são os números do Ministério da Saúde. O crescimento do número de casos e de mortes no primeiro mês é inferior ao da China, porém superior ao da Itália e da Espanha.

 

QUARENTENA QUESTIONADA

 

“Lockdown” e seus efeitos econômicos.

A adoção da “quarentena” ou “lockdown horizontal” com fechamento obrigatório de atividades comerciais e industriais produziu uma forte reação por parte de pequenos e grandes empresários temendo o elevado custo econômico da quarentena. Debateu-se propostas de “lockdown vertical”, retornando imediatamente às atividades, dos adultos e isolando apenas os idosos e os grupos de risco.

 

 

A crescente compreensão da estratégia de “achatamento da curva” foi percebida como uma troca de uma situação aguda de falta de capacidade hospitalar por uma situação mais prolongada de manutenção da quarentena e do “distanciamento social”, afetando os negócios por um período mais longo, provavelmente insuportável para os trabalhadores informais e pequenas empresas, principalmente.

Mas trabalhadores em geral e empresas em geral também sofrerão consequências de medidas prolongadas de restrição de atividades.

A situação estabelece um confronto entre as perdas de curto prazo (especialmente de vidas em decorrência de uma perda de controle da situação) e perdas de médio prazo (especialmente a sobrevivência das empresas e dos empregos).

A situação ideal é o equilíbrio entre os 02 extremos de perdas que o governo busca, mitigando ambas perdas.

Mas não houve tempo hábil para medir os resultados da quarentena, se foi suficiente para gerar uma postergação na disseminação da doença.

Enquanto isso, vários países como Índia, Rússia, China, Japão e outros editaram novas restrições para conter a disseminação do COVID-19.

Os EUA ultrapassaram a China em número de infectados e a Itália em número de mortos, tornando-se um novo epicentro da crise do Coronavírus.

Mesmo o discurso e as medidas adotadas nos EUA tornaram-se mais técnicas, alinhadas às recomendações iniciais dos especialistas da Saúde. Houve um recuo de Trump sobre o retorno após a Páscoa.

Começamos a semana tendo NY como o novo epicentro global do COVID-19, indicando que a ameaça de colapso do sistema hospitalar é válido até mesmo para a maior cidade da maior economia mundial.

 

NOVO Cenário

 

Ao longo da semana, no cenário nacional, quase tudo mudou em termos de política e estratégia de enfrentamento do CORONAVIRUS no Brasil. Continuam o “Distanciamento Social” e o “Isolamento”, reafirmados pelo Ministro Luiz Mandetta, mas já começaram os movimentos de liberação nos municípios e nos estados, o que nos parece inevitável diante dos interesses envolvidos.

Agora o movimento da sociedade e o tema da discussão já passou da Saúde para a Economia. A reposta esperada do Governo Federal transfere-se de “como combater o Coronavírus” para “como salvar a Economia”.

A entrevista/debate promovido pela XP com o Ministro Paulo Guedes mostra claramente esta nova expectativa e antecipou muitas das respostas. Muitos indicadores para os negócios virão da resposta do governo em como apoiar os diferentes setores através de alongamento dos compromissos, atendimento de pleitos setoriais, “capilarização” do auxilio para as camadas mais vulneráveis da sociedade, incentivo à manutenção dos empregos, aceleração de obras e investimentos em infraestrutura, aumento da capacidade de atendimento hospitalar, etc.

Assim, a nossa análise também se move para o campo da Economia e dos negócios, buscando indicações e direcionamentos úteis para nossos parceiros e clientes.

ganhadores e perdedores

 

Muito provavelmente falar em “ganhadores e perdedores” é otimismo demais neste ponto em que tudo está completamente indefinido, mas serve para indicar que em todas situações, as condições vividas pelas pessoas e pelas empresas são diferentes para cada situação.

Analisamos os fatores que determinam o potencial de cada negócio durante esta pandemia em termos gerais:

ESSENCIALIDADE: Um dos fatores mais importantes no curto prazo é a essencialidade dos setores de atividade. Os setores essenciais para o funcionamento da sociedade e da economia seguirão trabalhando, mesmo com redução de atividades. Setores que suportam estas atividades também são consideradas de alta essencialidade. O aspecto importante não é a autorização ou obrigatoriedade de funcionamento, mas é a demanda contínua destes setores, como supermercados, farmácias, hospitais, serviços públicos, transportes e indústrias. Focalizar as atividades na direção destes setores e avaliar os riscos através da essencialidade passa a ser a abordagem.

GEOGRAFIA: Um dos aspectos importantes desta pandemia é que apesar da abrangência global, ela é caracterizada por focos específicos de ocorrência. Wuhan, Milão, Nova York e São Paulo são exemplos claros de que em algumas regiões ou cidades haverá maiores dificuldades para a manutenção das atividades e dos negócios. Mas dependendo do setor de atuação, são os pontos focais da pandemia as maiores oportunidades. Claramente o número de empresas com estas condições é menor do que as que se beneficiam por estarem distantes dos focos. Na China, enquanto Wuhan sofreu um “lockdown” total, Beijing permaneceu pouco afetada.

SUPERFLUIDADE: Contrária à essencialidade, alguns setores são caracterizados por interesses excedentes ou dispensabilidade. Nas medidas iniciais de quarentena, foram listadas entre os negócios a serem suspensos temporariamente. A reabertura destas atividades não provoca recuperação da demanda e os consumidores continuarão afastados destes produtos e serviços, possivelmente ampliando as perdas em caso de reabertura. São os setores em que os empresários podem retomar as atividades, mas a análise necessária é se devem retomar as atividades. Podem perder mais do que a sua cota natural de sacrifício imposto pela crise.

Ao buscar os parceiros e clientes com melhores potenciais imediatos e por conseguinte menores riscos de negócios, considerar estes fatores podem ser muito úteis para orientação das equipes comerciais e executivos.

Uma nota de alerta é que assumir que os clientes não comparecem às lojas apenas pela restrição imposta pode ser uma leitura equivocada. A conscientização sobre os riscos da doença para uma parte da população poderá manter uma parcela importante de clientes afastada da atividade mesmo após a liberação.

 

O quadro acima indica o impacto (em geral) sobre os setores de atividades das empresas. Obviamente há exceções e situações particulares a serem consideradas, mas é clara a indicação da importância dos fatores acima mencionados que combinados entre si determinam o potencial do negócio.

CUIDADOS OPERACIONAIS

 

Empresas beneficiadas pelas suas condições diante destes fatores de classificação das oportunidades ainda necessitam considerar alguns aspectos fundamentais:

CAIXA: Manter as atividades durante um período de crise depende da sua própria disponibilidade de recursos para poder planejar, adquirir os meios, manter nos seus quadros os profissionais mais importantes. Há recursos sendo disponibilizados pela ação do governo, há possibilidade de flexibilidade de contribuições e negociações, mas a agilidade proporcionada pelos recursos próprios podem ser um diferencial importante na competição.

DESPESAS E CUSTOS: O tempo é o fator imponderável de uma crise, sendo que quanto mais longo o tempo mais recursos serão consumidos (queimados). Portanto é necessário considerar as reduções de custos e despesas possíveis, criando um Plano B com indicadores e gatilhos para as decisões da empresas. O Plano B deverá ser uma simulação estratégica de conhecimento dos executivos. Em geral a negligência de criar um Plano B posterga decisões e custa mais caro.

PESSOAL: Uma situação de ameaças pessoais, familiares e profissionais inéditas como o Coronavírus obviamente se traduz em perda de produtividade, eficiência e atenção. Assegurar o máximo de cuidado com o estado de saúde física e mental dos funcionários é importante para a empresa manter sua capacidade operacional. As orientações, as práticas e as verificações devem ir além do seu local de trabalho para assegurar a disponibilidade e a segurança dos trabalhadores.

A falta de cuidados com a saúde e práticas de asseio é o risco de interrupção de atividades mesmo em empresas de setores essenciais, além do risco potencial futuro em relação aos empregados e parceiros.  

Recomendações

 

A crise do Coronavírus no Brasil apenas começou e já foi “atropelada” pelos interesses econômicos mais imediatistas. Mas esse é o fato da vida e não há mais retorno. Ou, melhor será se o país não necessitar de voltar nas suas decisões tomadas durante a semana passada, numa conjunção de acertos e sorte.

O governo federal em conjunto com os governos estaduais estão acelerando a expansão da capacidade de atendimento hospitalar com hospitais de campanha, compra de materiais, compra de equipamentos e contratação de pessoal para melhorar as condições mínimas de atendimento, assumindo que não há outra alternativa, pelo menos por enquanto.

Assim é a dinâmica da sociedade em busca dos seus interesses e o próprio governo federal é um exemplo de que a sua resposta para a sociedade necessita ser moldada aos interesses mais imediatos no momento.

Analistas e especialistas mudaram de tom durante a semana, amenizando suas projeções e demonstrando mais positivismo aos números e fatos mais recentes. É claro que a mudança é mais um resultado de pressões sentidas do que de indicadores.

Mas o lado positivo é que o governo está mostrando seus planos, suas intenções e medidas que poderão ser tomadas para auxiliar a recuperação econômica junto com a administração da crise. É uma combinação mais arriscada, menos provável, mas aparentemente é o que temos para o momento.

Um dos fatores que causam apreensões e indecisões nas empresas é a falta de um calendário que determine o timing do próximo passo para as pessoas. Estabelecer antecipadamente os “check-points” para avaliações periódicas e decisões produz um foco maior nas ações em curso.

 

EM TODA CRISE DE GRANDES PROPORÇÕES, A ESTRATÉGIA É A SOBREVIVÊNCIA!

  “Espere o melhor, mas prepare-se para o pior.”

Durante esse período, estamos com as atividades presenciais da Consultoria suspensas, mas realizando trabalhos para os negócios de nossos clientes no suporte e acompanhamento de adaptação ao contexto atual e em decisões de caráter urgente.

As reuniões presenciais de Conselho e Consultoria serão transformadas em reuniões virtuais, mas principalmente em regime de consulta imediata de acordo com as necessidades dos clientes.

 

 

Yoshio Kawakami

André T. Kawakami

 

 

 

 

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