A psicologia do conflito construtivo por trás das boas decisões

13 de fevereiro de 2026


Adeildo Nascimento

 

Tem algo curioso acontecendo em muitas empresas. Quanto mais “harmonia” existe na mesa de reunião, piores são as decisões. E não porque as pessoas sejam incompetentes, mas porque aprenderam a evitar o conflito errado e, sem perceber, eliminaram também o conflito certo.

 

Durante muito tempo, vendemos a ideia de que times de alta performance são aqueles onde todos concordam. Isso é um mito perigoso. Em culturas realmente maduras, o conflito não é um problema, é uma ferramenta.

 

Eu costumo dizer que um time excessivamente unido pode ser um traço de vulnerabilidade. Quando ninguém discorda, quando tudo passa rápido demais, sem questionamento, o que existe ali não é alinhamento. É apatia.

 

Foi daí que surgiu o conceito do Clube da Boa Briga. Um espaço simbólico e prático, onde o conflito é permitido, organizado e direcionado para aquilo que realmente importa: a tarefa, o processo, a execução e o resultado.

 

A primeira grande separação que precisamos fazer é entre conflito inútil e conflito construtivo. O conflito ruim ataca pessoas. Ele ativa ego, inveja, proteção de território, defesa de status. É o tipo de embate que coloca o colaborador em modo sobrevivência, disputando espaço, visibilidade e poder, muitas vezes contra o próprio time.

 

Já o conflito bom é o conflito da tarefa. É quando discutimos estratégia, prazos, prioridades, perdas negociadas e ganhos coletivos. Aqui, o choque não é sobre quem é melhor. É sobre o que é melhor para a empresa.

 

A ausência total de briga é sempre um sinal de alerta. Quando não existe conflito algum, o que surge é a famosa “síndrome do eu te disse”. A pessoa não discorda na reunião, mas comenta depois, nos bastidores. Isso corrói confiança, engajamento e performance.

 

Por isso, o conflito construtivo não pode depender da coragem individual de alguém. Líderes e CEOs precisam criar rituais claros que incentivem a discordância saudável. Um deles é distribuir o papel da discordância. Nomear, a cada reunião, alguém responsável por tensionar ideias, questionar premissas e testar propostas ao limite. Criar espaço para dados, fatos e análises técnicas equilibra o jogo e qualifica o debate. Times de alta performance buscam engajamento.

 

Desenvolver o Clube da Boa Briga é sair desse lugar confortável e improdutivo, é reduzir conversas de corredor, diminuir corporativismos e fortalecer decisões coletivas. No fim das contas, uma boa briga não divide. Ela fortalece. Porque quando o time aprende a brigar bem, ele aprende, sobretudo, a decidir melhor.

Adeildo Nascimento é especialista em cultura organizacional e CEO da DHEO Consultoria

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