IRIP e IEP debatem inovação, engenharia e competitividade internacional no Paraná

22 de maio de 2026


“Os desafios da engenharia exigem soluções técnicas, inovadoras e construídas de forma colaborativa”. Com essa mensagem, o Presidente do Instituto de Engenharia do Paraná (IEP), Eng. Eletricista Nelson Luiz Gomez, destacou a importância do III Fórum IEP–IRIP: “Inovações na Engenharia para Negócios Internacionais”, realizado nesta quinta-feira (14.05), no Centro de Eventos do IEP, em parceria com o Instituto de Relações Internacionais do Paraná (IRIP).

“Aqui reunimos especialistas das áreas de inovação, tecnologia, engenharia, agronegócio e representantes de consulados para discutir o impacto das novas tecnologias na competitividade e na inserção internacional das empresas, além de abordar tendências ligadas à transformação digital, inovação industrial e conectividade no setor produtivo”, completou.

O fórum foi organizado pela Eng. Química Maristela Parigot, coordenadora da Câmara Técnica de ESG do IEP e Presidente do IRIP. Em sua fala, ela ressaltou a relevância da iniciativa para estimular o desenvolvimento de novas habilidades e ampliar a integração entre jovens, pesquisadores e profissionais do setor.

A programação foi dividida em dois painéis. O primeiro, “Inovação e Competitividade: da Engenharia ao Mercado e à Inserção Internacional”, reuniu Luiz Marcio Spinosa (Fundação Araucária) e Marielva Andrade (Positivo Informática), com mediação de Maristela Parigot. Já o painel “Agro 4.0: Inteligência Artificial, Robotização e Conectividade Espacial” contou com a participação de Stephan Bernard (Sateliot), Robson Mafioletti e Flávio Turra (Sistema Ocepar) e Luiz Osório Trentini (GET), sob mediação de Eugenio Stefanelo, coordenador da Câmara Técnica de Agronegócios do IEP.

Tecnologia precisa reduzir desigualdades

“O Paraná avança em inovação e sustentabilidade, mas a tecnologia só faz sentido quando chega às comunidades que mais precisam”, afirmou Filipe Braga Farhat, coordenador do Núcleo de Projetos Internacionais, vinculado à Casa Civil. Representando o Governo do Estado, ele destacou que “não adianta termos tecnologia de ponta se ela não estiver conectada às necessidades da população. Os campos deixaram de ser apenas locais de produção de alimentos e passaram a produzir dados, inteligência artificial e conectividade. Mas o Brasil ainda figura entre os países mais desiguais do mundo, e todos os governos precisam fazer sua parte”, destacou. Farhat, que é Eng. Agrônomo, elogiou a proposta do evento por reunir jovens, pesquisadores, representantes consulares e profissionais de diferentes áreas. “A pluralidade de visões e a presença da ciência nesses espaços são fundamentais para construirmos soluções mais eficientes e um Paraná mais preparado para o futuro”.

Inovação integrada ao conhecimento

Na abertura do primeiro painel, Maristela Parigot destacou a importância de fortalecer iniciativas voltadas ao desenvolvimento humano, à inovação e à integração entre diferentes áreas do conhecimento. “É encorajador observar esse cenário, porque vemos oportunidades promissoras de investimento no Brasil e exemplos de empresas paranaenses que já demonstram capacidade de competir globalmente. Precisamos valorizar nossos talentos, incentivar o crescimento das pequenas e médias empresas e fortalecer o país por meio da inovação”, afirmou.

Maristela também ressaltou a relevância da multidisciplinaridade no ambiente acadêmico e empresarial. “Muitas vezes, as universidades ainda funcionam de forma isolada entre suas áreas. Nossa proposta é justamente estimular o diálogo entre engenheiros, economistas, administradores, advogados e outros profissionais, porque a inovação nasce dessa troca de experiências e diferentes perspectivas”, completou.

Tecnologia, inovação e coragem

Marielva Andrade destacou a importância da inovação aliada ao propósito humano e à transformação social. “A inovação verdadeira precisa gerar valor e melhorar a vida das pessoas. Na Positivo, temos esse propósito desde o início: tornar a vida mais inteligente por meio da tecnologia”, afirmou. A executiva relembrou a trajetória da empresa, criada no Paraná, e que atualmente conta com mais de 9 mil colaboradores, presença em diferentes países da América Latina e atuação em mercados que vão desde computadores e smartphones até soluções em inteligência artificial, data centers e sistemas de pagamento digital. “Muita gente ainda desconhece a dimensão global da Positivo. Começamos em uma sala de aula e hoje competimos com grandes multinacionais, desenvolvendo tecnologia brasileira com alcance internacional”, ressaltou.

Segundo ela, inovar vai além do lançamento de produtos e envolve mudanças em processos, governança e modelos de negócios. “Assim como as organizações, as pessoas também podem se reinventar. A inovação nasce em ambientes que estimulam confiança, troca de ideias e coragem para propor soluções diferentes”, disse.

Por fim, incentivou estudantes e jovens profissionais a buscarem aprendizado contínuo, conexões estratégicas e experiências práticas. “O conhecimento é essencial, mas a aplicação prática faz toda a diferença em um mundo cada vez mais acelerado. Aproveitem oportunidades, participem de projetos e não tenham medo de ousar”, afirmou. A executiva também ressaltou a importância do networking e da colaboração internacional para ampliar oportunidades de negócios e fortalecer a presença de empresas brasileiras no exterior.

Ciência, inovação e engenharia

“A engenharia tem a capacidade de transformar ideias em realidade e exerce um papel fundamental no desenvolvimento humano e econômico”, afirmou Luiz Marcio Spinosa, destacando que o Paraná possui um dos sistemas de ciência, tecnologia e inovação mais estruturados do país, com universidades distribuídas em diferentes regiões do estado e cerca de 25 mil doutores atuando em áreas estratégicas. “Nossa missão é mobilizar esse capital intelectual para gerar competitividade, riqueza, qualidade de vida e desenvolvimento sustentável. A inovação acontece, principalmente, dentro das empresas, e por isso precisamos fortalecer cada vez mais essa conexão entre universidades, setor produtivo e governo”, ressaltou.

A Fundação Araucária vem ampliando os investimentos em startups, inovação aberta e programas voltados ao desenvolvimento tecnológico das empresas paranaenses. “Temos aproximadamente quatro mil engenheiros atuando no sistema estadual de ciência e tecnologia. É um patrimônio intelectual gigantesco, que precisa estar conectado às demandas reais do mercado e da sociedade”, afirmou.

Ao falar aos estudantes e jovens profissionais presentes no evento, Spinosa defendeu a educação continuada e a adaptação às novas tecnologias, especialmente à inteligência artificial. “A inteligência artificial não vai substituir quem sabe utilizá-la de forma estratégica. O conhecimento, a capacidade de inovação e a formação sólida continuarão sendo diferenciais fundamentais”, afirmou. Alertou para os desafios que o Paraná e o Brasil terão diante das novas exigências internacionais, como as previstas no acordo entre Mercosul e União Europeia. “Precisamos preparar rapidamente nosso sistema científico e tecnológico para responder a essas demandas globais. A velocidade da inovação cria desafios, mas também abre oportunidades inéditas para a nova geração de profissionais”, conclui.

Transformação do agronegócio paranaense

Ao conduzir o segundo painel do fórum, Eugenio Stefanelo ressaltou a rápida evolução tecnológica no agronegócio e o papel estratégico da conectividade rural. “Hoje, a diferença entre o urbano e o rural praticamente desapareceu. O campo já opera com máquinas e equipamentos dotados de tecnologia embarcada e, em muitos casos, caminhamos para sistemas cada vez mais autônomos”, afirmou.

Ele disse que o Paraná possui um cooperativismo extremamente organizado e uma forte capacidade de agroindustrialização, agregando valor à produção, gerando emprego, renda e fortalecendo toda a cadeia produtiva”. E observou o papel decisivo dos satélites na ampliação da conectividade, permitindo o acesso a imagens de alta resolução e dados em tempo real.

Conectividade via satélite

A expansão da conectividade em áreas rurais e remotas foi um dos temas abordados por Stephan Bernard. O executivo apresentou a proposta da Sateliot, empresa espanhola, criada em 2019, que oferece conectividade via satélite para aplicações de Internet das Coisas (IoT) por meio de um modelo padronizado e integrado às redes móveis tradicionais. “Hoje, cerca de 70% do território brasileiro ainda não possui conectividade adequada. Nosso objetivo é transformar a rede satelital em uma extensão natural da rede terrestre, permitindo cobertura praticamente total sem necessidade de construir novas torres ou redes privativas”, afirmou.

Segundo Bernard, a Sateliot desenvolveu um modelo baseado em padrões globais de telecomunicações, eliminando a dependência de protocolos proprietários, que elevam custos e dificultam a escalabilidade. “Na prática, dispositivos conectados utilizam a rede celular convencional quando há cobertura terrestre e passam automaticamente para a rede satelital quando estão em áreas remotas. O usuário não percebe a troca. O dispositivo decide sozinho qual rede utilizar, garantindo uma experiência contínua e transparente”, destacou. A tecnologia pode ser aplicada em setores como agricultura, logística, mineração, petróleo e gás, energia, monitoramento ambiental e rastreamento marítimo.

O executivo também detalhou a evolução da constelação de satélites da empresa, que atualmente conta com quatro satélites comerciais operacionais e deve alcançar 26 unidades até o final de 2027. “Estamos construindo a primeira constelação mundial de IoT em órbita baixa baseada totalmente em padrão celular. Até 2030, teremos mais de 400 satélites em operação”, afirmou. “Queremos permitir que empresas brasileiras adotem rapidamente a conectividade NTN (rede não-terrestre), aproveitando sua infraestrutura atual sem precisar começar do zero. A transição pode ocorrer em cerca de 90 dias, com baixo custo e rápida integração”.

Robótica e sustentabilidade

A inovação aplicada à engenharia e ao agronegócio foi destaque na apresentação do engenheiro mecânico e civil Luiz Osório Trentini. À frente da General Engineering Technologies (GET), o executivo apresentou projetos voltados à automação, robotização e sustentabilidade em estruturas agroindustriais. “Nossa missão é transformar desafios complexos em soluções inovadoras e sustentáveis. A engenharia precisa atuar de forma integrada, conectando tecnologia, ciência, arquitetura, design e sustentabilidade”, afirmou. Segundo ele, a startup opera no modelo deep tech, desenvolvendo soluções avançadas em parceria com universidades, centros de pesquisa e empresas do setor produtivo.

Entre os projetos apresentados, Trentini destacou o desenvolvimento de um aviário automatizado e robotizado, construído com materiais de menor impacto ambiental e equipado com sistemas inteligentes de monitoramento. “O projeto-piloto prevê o uso de alumínio reciclável, painéis fotovoltaicos, robôs para distribuição automatizada de ração e sensores conectados para monitoramento de dados em tempo real”.

O CEO da GET ressaltou a importância da integração entre engenharia, robótica, Internet das Coisas (IoT) e conectividade via satélite para ampliar a eficiência do setor agroindustrial. “A engenharia do futuro será cada vez mais orientada por dados, automação e inteligência artificial. Precisamos desenvolver soluções que aumentem a produtividade, mas também promovam sustentabilidade, eficiência energética e melhores condições de produção”, afirmou.

Tecnologia agrega valor ao agro

O avanço tecnológico no campo e a força do cooperativismo paranaense foram destacados por Flávio Turra. Ele apresentou um panorama do setor no estado e ressaltou o crescimento da agricultura de alta tecnologia. “Já estamos falando em agricultura 4.0 e até em avicultura 5.0. O cooperativismo paranaense acompanha essa evolução com forte investimento em tecnologia, industrialização e inovação”, afirmou. O Paraná possui atualmente 255 cooperativas, que movimentaram R$ 223 bilhões no último ano, reunindo cerca de 4,5 milhões de cooperados e gerando mais de 154 mil empregos.

Turra destacou que o cooperativismo tem papel essencial na sustentação das pequenas propriedades rurais, predominantes no estado. “A média das propriedades dos cooperados é de 48 hectares. Individualmente, seria muito difícil garantir competitividade e renda. A cooperativa organiza o produtor, gera escala e agrega valor por meio da agroindustrialização”, explicou. Ressaltou ainda que as cooperativas receberam cerca de 70% da produção estadual de grãos na última safra e seguem ampliando investimentos em proteínas animais, piscicultura, processamento de milho e etanol.

Ao abordar as tendências do setor, Turra destacou o uso crescente de inteligência artificial, sensores, automação e biotecnologia no campo. E alertou para desafios ligados ao clima, energia elétrica e competitividade internacional, mas demonstrou confiança no potencial do Paraná. O estado reúne condições excepcionais: cooperativismo estruturado, capital humano qualificado, tecnologia, logística e capacidade de inovação. “O futuro do agro passa pela agregação de valor, pela industrialização e pela transformação da produção em produtos cada vez mais sofisticados”.

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