
Adeildo Nascimento
Tem algo curioso acontecendo em muitas empresas. Quanto mais “harmonia” existe na mesa de reunião, piores são as decisões. E não porque as pessoas sejam incompetentes, mas porque aprenderam a evitar o conflito errado e, sem perceber, eliminaram também o conflito certo.
Durante muito tempo, vendemos a ideia de que times de alta performance são aqueles onde todos concordam. Isso é um mito perigoso. Em culturas realmente maduras, o conflito não é um problema, é uma ferramenta.
Eu costumo dizer que um time excessivamente unido pode ser um traço de vulnerabilidade. Quando ninguém discorda, quando tudo passa rápido demais, sem questionamento, o que existe ali não é alinhamento. É apatia.
Foi daí que surgiu o conceito do Clube da Boa Briga. Um espaço simbólico e prático, onde o conflito é permitido, organizado e direcionado para aquilo que realmente importa: a tarefa, o processo, a execução e o resultado.
A primeira grande separação que precisamos fazer é entre conflito inútil e conflito construtivo. O conflito ruim ataca pessoas. Ele ativa ego, inveja, proteção de território, defesa de status. É o tipo de embate que coloca o colaborador em modo sobrevivência, disputando espaço, visibilidade e poder, muitas vezes contra o próprio time.
Já o conflito bom é o conflito da tarefa. É quando discutimos estratégia, prazos, prioridades, perdas negociadas e ganhos coletivos. Aqui, o choque não é sobre quem é melhor. É sobre o que é melhor para a empresa.
A ausência total de briga é sempre um sinal de alerta. Quando não existe conflito algum, o que surge é a famosa “síndrome do eu te disse”. A pessoa não discorda na reunião, mas comenta depois, nos bastidores. Isso corrói confiança, engajamento e performance.
Por isso, o conflito construtivo não pode depender da coragem individual de alguém. Líderes e CEOs precisam criar rituais claros que incentivem a discordância saudável. Um deles é distribuir o papel da discordância. Nomear, a cada reunião, alguém responsável por tensionar ideias, questionar premissas e testar propostas ao limite. Criar espaço para dados, fatos e análises técnicas equilibra o jogo e qualifica o debate. Times de alta performance buscam engajamento.
Desenvolver o Clube da Boa Briga é sair desse lugar confortável e improdutivo, é reduzir conversas de corredor, diminuir corporativismos e fortalecer decisões coletivas. No fim das contas, uma boa briga não divide. Ela fortalece. Porque quando o time aprende a brigar bem, ele aprende, sobretudo, a decidir melhor.
Adeildo Nascimento é especialista em cultura organizacional e CEO da DHEO Consultoria