
No atual cenário corporativo brasileiro, a criatividade estratégica consolidou-se como a segunda competência mais buscada em gestores. No entanto, para que ela floresça, é necessário enfrentar um desafio paradoxal, ou seja, o ato de desaprender. Para Luiz Omar, conselheiro na ABRH-PR e fundador do Instituto Nômade Mental, essa não é uma tarefa que se executa por decreto.
“Incentivar o ‘desaprender’ é uma ação falsamente simples. Isso não ocorre por exortação ou comando da liderança”, explica Omar. Segundo ele, a mudança só acontece quando o líder incorpora essa crença em seu sistema pessoal, servindo de exemplo. “Ações criativas rompem com o estabelecido. É um ato de desaprender o que já está sendo feito para abrir espaço para novos aprendizados”.
Elo entre presente e futuro
A aplicação prática dessa mentalidade reside na conexão de metodologias consagradas. Luiz Omar define a criatividade estratégica como o elo que une o presente, através do Design Thinking, ao futuro, por meio de cenários prospectivos. Esse processo, contudo, exige que as empresas valorizem a etapa do processo criativo chamada de “iluminação” ou ideação.
“A ideia inovadora emerge como um flash, um momento ‘eureka’. É um processo com forte viés intuitivo. Líderes que não reconhecem a importância da intuição acabam por inibir a inovação e comprometem todo o processo criativo”, alerta o especialista.
Da sobrevivência à expansão
Um dos maiores inimigos da inovação real é o medo. Quando o erro é punido, as equipes recuam para o que Omar chama de “teatro corporativo”, onde profissionais apenas performam papéis burocráticos sem questionar padrões obsoletos. A solução reside na segurança psicológica.
“Ambientes onde a confiança é cultivada transformam o modo ‘sobrevivência’ em modo ‘expansão’. O foco deixa de ser o medo da demissão e passa a ser a criação de valor”. Nesse contexto, o erro ganha um novo status, o de professor. “Errar o mesmo erro repetidamente é ruim, mas o erro inédito é fonte de melhoria contínua e agilidade na tomada de decisão”, pontua.
Nomadismo mental
Para expandir esses horizontes, Luiz Omar propõe o conceito de nomadismo mental. A ideia é que o gestor busque repertórios em áreas totalmente distintas de sua atuação técnica, como artes, filosofia e tradições sapienciais. A cultura organizacional deve incentivar o “ócio criativo” e valorizar hobbies e vivências pessoais dos colaboradores como ativos da empresa.
Essa diversidade de repertório reflete diretamente na assertividade em momentos de crise. Dados indicam que decisões são mais eficazes quando há pluralidade de visões. Para Omar, a disrupção nasce justamente da “colisão” de mundos diferentes. “A disrupção surge de um desconforto. Ela ocorre quando o foco deixa o centro do mercado e direciona-se para as bordas de outros contextos”.
Lições de setores inusitados
A busca por soluções fora da “caixa” do próprio setor é outra estratégia vital. Luiz Omar compartilha um caso emblemático de sua trajetória na Receita Federal, onde buscou referências de gestão em um hospital. Embora pareçam opostos, ambos lidavam com hierarquias rígidas e públicos que preferiam não estar ali.
“O cruzamento de visões permite a validação por contraste e a adaptação local. O desempenho organizacional depende da qualidade das interações humanas, independentemente do setor”, afirma. Ao olhar para o vizinho, por mais distante que ele pareça, a liderança traz o “olhar fresco” necessário para resolver os problemas complexos de hoje e de amanhã.
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