Cultura e inteligência artificial

17 de agosto de 2026


Adeildo Nascimento mostra como a inteligência artificial pode potencializar a cultura das organizações e defende o fortalecimento do fator humano antes da adoção massiva da tecnologia

 

A inteligência artificial não transforma, sozinha, a essência de uma empresa. Ela potencializa aquilo que já existe. Essa foi uma das principais provocações de Adeildo Nascimento na palestra “A IA como Amplificadora da Cultura Organizacional”. Para o CEO da DHEO, adotar novas tecnologias sem antes compreender a cultura, os processos e os modelos de gestão da organização podem fazer com que problemas existentes sejam apenas reproduzidos, e até ampliados, em uma velocidade maior.

 

A lógica é simples. Se a cultura é lenta, ineficiente ou marcada por processos ruins, a IA não necessariamente resolverá essas deficiências. Ao contrário, poderá potencializá-las. Por isso, antes de implementar uma estratégia AI First, as empresas precisam olhar para dentro e realizar um diagnóstico cultural capaz de identificar quais comportamentos, estruturas e processos podem ser amplificados pela tecnologia.

 

Nascimento chamou atenção para o risco dos chamados “benchmarks preguiçosos”, quando organizações adotam soluções simplesmente porque outras empresas estão utilizando, sem avaliar se elas fazem sentido para sua realidade. A tecnologia precisa estar conectada ao contexto, aos objetivos e à cultura de cada negócio.

Tecnologia sobre estruturas ruins

Outro ponto destacado foi que a inteligência artificial não cria valor quando simplesmente é sobreposta a estruturas organizacionais obsoletas. Modelos engessados, metas contraditórias, processos desatualizados, responsabilidades ambíguas ou sistemas de gestão mal aplicados podem continuar produzindo problemas mesmo com a presença de ferramentas tecnológicas sofisticadas.

 

Para Nascimento, produtividade não deve ser tratada apenas como resultado da adoção de ferramentas. Ela está diretamente relacionada ao desenho organizacional, que precisa ter a cultura como um de seus pilares.

 

“A cultura influencia o fator humano e, consequentemente, decisões que vão desde o desenho dos cargos até estruturas salariais e os diferentes subsistemas de gestão. Por isso, a transformação tecnológica precisa ser acompanhada de uma transformação na forma como as organizações trabalham, decidem e distribuem responsabilidades”.

 

O risco da mediocridade

Um dos alertas apresentados na palestra está relacionado ao risco de a IA conduzir as empresas à mediocridade quando utilizada sem conhecimento, contexto e critério humano. Com a popularização das ferramentas de inteligência artificial, produzir respostas, textos, análises e conteúdos tornou-se cada vez mais rápido e barato. O problema é que a abundância de respostas não significa necessariamente qualidade. “O preço da resposta caiu, o valor do critério aumentou”, sintetizou.

Nesse novo cenário, o diferencial não está apenas em conseguir uma resposta da IA, mas em saber qual pergunta fazer, quais evidências selecionar, como interpretar os resultados e quais informações realmente fazem sentido para aquele contexto.

 

Um dos exemplos citados foi o uso superficial da IA para analisar relatórios ou documentos. Quando o material é simplesmente inserido em uma ferramenta e recebe o comando para ser criticado, a tendência é que o resultado seja genérico. Sem dados históricos, metadados, critérios e conhecimento acumulado sobre o negócio, a tecnologia não consegue produzir uma análise verdadeiramente contextualizada.

 

“É nesse ponto que surge a figura do chamado “sommelier de IA”. O profissional capaz de avaliar, direcionar e qualificar o uso da tecnologia a partir de conhecimento, discernimento e critérios técnicos”.

 

O humano ganha valor

Paradoxalmente, quanto mais acessível se torna a inteligência artificial, maior tende a ser a importância de competências exclusivamente humanas. Nascimento destacou “a capacidade de formular perguntas estratégicas, identificar exceções, interpretar contextos, selecionar evidências, exercer julgamento ético e assumir responsabilidade pelas decisões como competências que ganham ainda mais relevância diante da expansão da IA”.

 

A tecnologia trabalha com padrões e médias, mas a cultura organizacional muitas vezes se manifesta justamente nas exceções. “São situações, comportamentos e histórias que não necessariamente aparecem em grandes volumes de dados, mas revelam como a organização realmente funciona”.

 

Também existe uma dimensão de coragem. Cabe ao profissional confrontar decisões quando necessário, inclusive diante de posições de liderança, e apontar quando determinadas ações estão desalinhadas com a cultura ou com os valores da empresa.

“A IA pode oferecer informações e possibilidades, mas não assume as consequências das decisões. Esse continua sendo um papel humano”, frisou.

 

Cultura como infraestrutura

A discussão conduz a uma mudança de perspectiva sobre o valor da cultura organizacional. Em um ambiente marcado por transformações aceleradas e pelo que Nascimento apresenta como um “mundo de caos”, a cultura passa a ser entendida como uma verdadeira infraestrutura de gestão.

“O valor das empresas também vem se deslocando cada vez mais dos ativos tangíveis para os intangíveis. Em mercados nos quais produtos e operações são semelhantes, a cultura pode se transformar em um dos principais elementos de diferenciação competitiva”.

 

A cultura, porém, não é simples de traduzir em conceitos. “É algo que se manifesta nas histórias contadas pelas lideranças, nas decisões tomadas, nos comportamentos tolerados e nos critérios utilizados para reconhecer pessoas e resultados”, observou.

 

Por isso, a tecnologia não elimina as lógicas culturais existentes. Ela se integra aos sistemas de poder, incentivos, confiança e responsabilização que já fazem parte da organização, e pode amplificá-los.

 

AI First exige cultura forte

A adoção prioritária da inteligência artificial pode gerar ganhos importantes de produtividade, mas isso depende das condições organizacionais em que a tecnologia será inserida. “Uma estratégia AI First não deve significar simplesmente substituir pessoas por ferramentas para reduzir custos no curto prazo. A demissão massiva de profissionais e a perda do critério humano podem levar à homogeneização de produtos e serviços, fazendo com que empresas diferentes passem a oferecer soluções cada vez mais semelhantes”, pontuou.

 

A vantagem competitiva sustentável, portanto, não estaria apenas na ferramenta utilizada, mas na capacidade da organização de combinar tecnologia e cultura.  As pessoas fazem a diferença. O profissional responsável por cultura e pessoas precisa atuar como protagonista, ajudando a organização a compreender sua própria cultura antes de implementar mudanças”.

 

Finalizando a apresentação, Nascimento completou que a inteligência artificial pode acelerar processos, ampliar capacidades e democratizar o acesso ao conhecimento. Mas não substitui o julgamento humano, a leitura de contexto, a responsabilidade e a capacidade de compreender aquilo que torna cada organização única. Antes de perguntar o que a IA pode fazer pela empresa, é preciso entender o que a cultura da empresa fará com a IA”.

 

Texto: Básica Comunicações

Crédito:  Malusantosfotografia

 

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