Controle de mão de obra é apontado como essencial para a produtividade em palestra no IEP

18 de março de 2026


O Instituto de Engenharia do Paraná (IEP) foi palco de uma reflexão profunda sobre os rumos da construção civil e eletromecânica no Brasil.

Nesta terça-feira, o projetista e coordenador de planejamento Ildefonso Xavier Liz, profissional com mais de 30 anos de bagagem em gigantes como Odebrecht e Camargo Corrêa, compartilhou sua visão crítica sobre um “elo perdido” nos canteiros modernos: o rigoroso controle da produtividade.

Com uma narrativa leve, mas carregada de experiência, Ildefonso relembrou os tempos da construção da Refinaria de Araucária, há cinco décadas. Naquela época, o processamento de dados era feito em computadores IBM via cartões perfurados, mas a lógica era infalível. “Tínhamos o controle exato de cada homem-hora. Hoje, muitas empresas parecem ter perdido a mão sobre o que acontece no campo”, pontuou.

Custo da ociosidade
Uma das principais críticas do palestrante foi a extinção da figura do apontador de campo. Para Ildefonso, economizar no salário de um fiscal que monitora a execução direta é um “barato que sai caro”. Ele argumenta que, sem esse acompanhamento, a ociosidade se camufla.

“O colaborador finge que vai fumar para se ausentar, o uso do celular consome horas preciosas e as pausas para deslocamento são subestimadas. Em uma jornada de 44 horas semanais, a produtividade real muitas vezes não passa de 35 horas”, alertou. Segundo ele, o sucesso de um pleito contratual ou de uma reivindicação de horas extras depende de registros físicos e econômicos sólidos, algo que o “controle visual por binóculos” de algumas gestões modernas não consegue suprir.

Ciência das planilhas
Para combater a ineficiência, Ildefonso apresentou ferramentas práticas que desenvolveu ao longo de décadas. Suas planilhas, longe de serem apenas listas de materiais, são verdadeiros organismos de gestão. Uma delas, focada na área elétrica, conta com mais de 950 itens detalhados, enquanto outra, mais abrangente, chega a 3.800 itens.

O segredo, segundo o projetista, está no “fator de correção”. Ele explicou como calcula as horas de trabalho reais multiplicando o valor base por índices de perda, garantindo que o orçamento preveja as dificuldades reais de acesso, altura e as particularidades de cada cliente. “Não se faz orçamento sentado no escritório. A visita técnica é o que permite enxergar o obstáculo que a planilha sozinha não mostra”, afirmou.

Gargalo das obras públicas
Ao final, o tom foi de convocação para uma mudança na formação profissional e na gestão pública. Ildefonso criticou a lacuna nas faculdades de Engenharia Civil, que muitas vezes não preparam o aluno para o planejamento prático, cronogramas e histogramas de mão de obra.

Ele também lamentou o cenário das obras públicas brasileiras, onde a escolha pelo “menor preço” sem análise da capacidade técnica e a falta de fiscalização rigorosa resultam em canteiros paralisados e prazos esticados. “Uma obra de seis meses que leva vinte é sinal de que o planejamento falhou ou os recursos não foram alocados. Sem controle de progresso físico-financeiro, o atraso é inevitável”, concluiu, reforçando que a engenharia de excelência exige, acima de tudo, presença e métricas reais no canteiro.

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