Afastamentos do trabalho batem recorde em 2025 e escancaram crise de saúde mental no país

9 de fevereiro de 2026


Ansiedade e depressão já são a segunda maior causa de licenças; mulheres concentram 63% dos afastamentos psicológicos, segundo dados da Previdência Social

O Brasil registrou em 2025 o maior número de afastamentos do trabalho dos últimos cinco anos, impulsionado principalmente pelo avanço dos transtornos mentais. De acordo com levantamento do Ministério da Previdência Social, ao todo, foram concedidos 4.126.110 benefícios por incapacidade temporária, uma alta de 15,19% em relação a 2024. Dentro desse total, mais de 546 mil licenças tiveram como causa transtornos mentais e comportamentais, estabelecendo um novo recorde histórico.

Outro dado relevante é o recorte de gênero. As mulheres concentraram 63% dos afastamentos por causas psicológicas, o equivalente a cerca de 346 mil concessões, evidenciando desigualdades que atravessam o mercado de trabalho.

Os resultados do relatório da Previdência Social revelam um cenário de adoecimento crescente da força de trabalho brasileira, no qual ansiedade e depressão ganharam protagonismo. Somadas, essas condições já representam a segunda maior causa geral de afastamento no país, atrás apenas das doenças da coluna.

Saúde mental é o centro do problema

Para o especialista em cultura organizacional, Adeildo Nascimento, CEO da DHEO Consultoria, a chamada segurança psicológica precisa ser compreendida como uma prática de gestão e não como um substituto da terapia. “Segurança psicológica não é terapia corporativa, é gestão responsável de recursos humanos. O RH precisa criar ambientes onde os colaboradores tenham espaço para falar antes de adoecer”, afirma. Segundo ele, esse processo começa com líderes capacitados para identificar sinais de esgotamento, manter conversas frequentes de acompanhamento e estabelecer rituais claros de escuta. “Empresas com cultura forte não esperam o atestado médico. Elas identificam o cansaço antes que ele vire afastamento”, reforça.

Outro ponto crítico, segundo o especialista, é a sobrecarga das equipes que permanecem ativas quando um colaborador se afasta. “O risco vai além da ausência formal. Existe uma sobrecarga invisível sobre quem fica”, diz. Nesse contexto, ele defende uma atuação conjunta entre RH e liderança para redistribuição de tarefas, revisão temporária de metas e reordenação de prioridades. “Cultura saudável não é extrair até o limite das pessoas. É reduzir a marcha para não quebrar o motor”, resume.

O retorno ao trabalho após um afastamento por transtornos mentais também exige atenção especial. De acordo com o CEO da DHEO Consultoria, a reintegração deve ser planejada e gradual. “Não pode ser um retorno brusco. Envolve acolhimento, renegociação de expectativas e adaptação da carga de trabalho”, explica. Alerta que líderes despreparados e ambientes marcados por julgamento ou preconceito aumentam significativamente o risco de recaídas. “O estigma adoece muito mais”.

 Cultura organizacional como ferramenta de prevenção

Adeildo Nascimento destaca ainda que os indicadores de absenteísmo, quando analisados de forma estratégica, podem orientar políticas mais eficazes de prevenção. “O absenteísmo não é só um dado operacional. Ele revela onde a cultura da empresa está pressionando demais: no estilo de liderança, na jornada, nas funções ou no ambiente de trabalho”, afirma. A partir dessas informações, o RH pode desenvolver benefícios e políticas personalizadas, focadas nas causas do adoecimento, e não apenas em seus sintomas.

Para o especialista, a cultura organizacional é um dos principais fatores para prever e prevenir novos afastamentos. “A cultura determina como as pessoas lidam com a pressão e até se elas se sentem seguras para pedir ajuda”, explica. Empresas com discursos coerentes e práticas humanizadas conseguem identificar sinais de adoecimento antes que o afastamento aconteça. “Nesses casos, o absenteísmo deixa de ser surpresa e passa a ser um indicador preventivo e estratégico”, conclui.

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