
As transformações no mercado de trabalho e as novas competências exigidas dos profissionais estiveram no centro das discussões do evento “Quando o mercado fala: o futuro da formação em debate”, realizado no dia 26/05, na FESP. O encontro, organizado pela Diretoria de Educação da ABRH-PR, reuniu representantes de instituições de ensino, gestores de Recursos Humanos e profissionais de diferentes setores para discutir caminhos mais conectados entre academia e mercado.
Durante o evento, foram apresentados os resultados de uma pesquisa de mercado realizada pela entidade no fim do ano passado, que identificou uma defasagem entre o que o mercado demanda e aquilo que ainda é praticado em parte da formação acadêmica. O levantamento contou com respostas de empresas associadas e não associadas à ABRH-PR, além de profissionais de diversas áreas, trazendo um panorama sobre as competências mais exigidas pelas organizações e as principais lacunas percebidas na formação dos recém-profissionais.
A programação também contou com uma dinâmica no formato World Café, chamada “Rodada de Sinergia”, conduzida por Jean Pausteur, da Diretoria de Educação, que promoveu debates colaborativos entre os participantes. Divididos em quatro grupos, os integrantes passaram por todas as mesas temáticas, cada uma conduzida a partir de uma pergunta central relacionada aos desafios da educação, desenvolvimento de competências, aproximação com o mercado e inovação no ensino superior.
Mais do que uma troca de experiências, a iniciativa buscou estimular a construção conjunta de soluções. Ao final das rodadas, os grupos compartilharam reflexões e conclusões sobre temas como visão sistêmica, pensamento crítico, inteligência emocional, comunicação assertiva, liderança, resolução de problemas reais e fortalecimento das parcerias entre empresas e instituições de ensino. O objetivo foi transformar a escuta do mercado em ações práticas capazes de contribuir para uma formação mais alinhada às demandas contemporâneas das organizações.
Transformações geram desafios
A apresentação dos resultados da pesquisa conduzida por Ana Valadão, membro da Diretoria de Educação da ABRH-PR, trouxe reflexões sobre os desafios da formação profissional diante das transformações aceleradas do mercado de trabalho. “Vivemos um momento em que as instituições de ensino precisam revisar constantemente seus currículos para acompanhar a velocidade das mudanças do mercado. Hoje, os alunos buscam menos teoria e mais prática, especialmente estudos de caso e aplicações reais do conhecimento”, destacou.
Segundo Ana, a pesquisa contou com a participação de 27 organizações, majoritariamente representadas por profissionais de Recursos Humanos e empresas de médio porte dos setores de serviços, indústria e educação. “Os dados reforçam demandas que já vêm sendo percebidas nas organizações, especialmente em temas como atração de talentos, cultura organizacional, gestão da mudança e fortalecimento das lideranças”, explicou.
Entre os pontos de maior atenção apontados pelo levantamento estão o desenvolvimento de habilidades comportamentais, saúde mental e liderança humanizada. “As empresas buscam profissionais com comunicação assertiva, inteligência emocional, autonomia e visão estratégica. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com ambientes de trabalho mais saudáveis, inclusivos e conectados ao propósito das pessoas”, afirmou.
A pesquisa também revelou um equilíbrio na preferência das empresas entre treinamentos presenciais e híbridos, além da valorização da aplicabilidade prática do aprendizado. “O mercado quer profissionais capazes de transformar conhecimento em ação. A teoria continua importante, mas a experiência prática e a capacidade de gerar resultados concretos fazem toda a diferença”, concluiu Ana Valadão.
Rodada da sinergia
A dinâmica “Rodada de Sinergia” foi um dos destaques do evento. A proposta reuniu representantes de instituições de ensino, gestores de RH, docentes, empresários e voluntários em mesas temáticas que discutiram os desafios da formação profissional diante das exigências do mercado.
Na primeira mesa, o foco esteve na construção de uma jornada acadêmica mais conectada à visão sistêmica e ao pensamento crítico. Os participantes refletiram sobre a fragmentação dos currículos, a necessidade de maior integração entre disciplinas e a importância de aproximar a formação da realidade das organizações. Também foram debatidos os novos objetivos dos estudantes, cada vez mais voltados ao empreendedorismo e à aplicação prática do conhecimento. O grupo concluiu que ainda existe um desalinhamento entre o que o mercado espera, o que as instituições oferecem e o que os alunos buscam para suas carreiras.
A segunda mesa discutiu como a parceria entre academia e empresas pode transformar a graduação em um ambiente voltado à resolução de problemas reais. Entre os principais pontos levantados estiveram a inclusão de desafios corporativos dentro da sala de aula, o fortalecimento das metodologias ativas de aprendizagem e a criação de agentes de relacionamento para aproximar universidades e organizações. O debate também destacou a importância do protagonismo estudantil, dos estágios e das experiências práticas como ferramentas para acelerar a preparação dos alunos para o mercado de trabalho.
Já as mesas três e quatro concentraram as discussões no desenvolvimento de competências comportamentais e estratégicas. Estudos de caso reais, diálogo intergeracional, trabalho em equipe, comunicação assertiva, gestão de conflitos e networking apareceram entre os temas mais debatidos. Os participantes defenderam uma formação que una teoria, prática e vivência de mercado, aproximando empresas e instituições de ensino em uma relação contínua de troca. A conclusão geral apontou que habilidades como inteligência emocional, resiliência, comunicação e relacionamento são fundamentais para formar profissionais mais preparados para atuar em diferentes contextos organizacionais.
Abertura e boas-vindas
Sergio Filipe Chaerki, diretor administrativo-financeiro da FESP, deu as boas-vindas aos participantes destacando o momento de transformação vivido pela instituição e a importância da parceria com a ABRH-PR. “É uma honra participar desta equipe que está conduzindo o processo de recuperação da FESP, uma instituição quase centenária, fundada em 1937, e que agora também avança para novas áreas, como a saúde”, afirmou.
O presidente da ABRH-PR, Gilmar Silva de Andrade, destacou a importância de aproximar instituições de ensino e mercado de trabalho, reforçando que a discussão sobre a atualização da formação profissional acompanha há anos o universo acadêmico e corporativo. Ressaltou que a experiência prática dos docentes é um fator decisivo para a qualidade da formação. “Havia excelentes professores, com títulos acadêmicos importantes, mas muitas vezes sem vivência de mercado”. Para ele, iniciativas como o evento representam uma oportunidade de fortalecer o diálogo e tornar a formação mais conectada às demandas contemporâneas.
Léia Cordeiro, diretora de Educação da ABRH-PR, afirmou que o evento nasceu de uma inquietação compartilhada por profissionais que vivenciam tanto o mercado quanto a sala de aula. “Nós percebemos, no dia a dia, uma defasagem entre o que o mercado precisa e aquilo que muitas vezes as instituições conseguem entregar. Essa é uma preocupação antiga da nossa diretoria, que motivou uma série de discussões e projetos”, destacou.
Segundo Léia, a pesquisa realizada pela entidade no fim do ano passado confirmou que essa percepção é ampla e compartilhada por diferentes organizações e profissionais. Pontuou que o encontro foi pensado como um espaço de construção coletiva e diálogo aberto entre instituições de ensino, empresas e profissionais de RH. “Queremos criar um ambiente de escuta, troca e colaboração. Não enxergamos as instituições como concorrentes, mas como parceiras estratégicas para transformar o mercado. Precisamos sair da postura de apenas reclamar e partir para ações concretas, inovadoras e colaborativas”, concluiu.
Considerações sobre o evento
Gilmar de Andrade destacou que a “Rodada de Sinergia” reforçou a importância de aproximar teoria e prática na formação profissional. “As discussões mostraram que o desenvolvimento da visão sistêmica e do pensamento crítico passa, necessariamente, por metodologias mais conectadas à realidade do mercado, como estudos de caso, simulações e dinâmicas práticas. Ainda temos currículos muito fragmentados, que dificultam essa integração”, afirmou. Segundo ele, além do conhecimento técnico, as instituições precisam investir no desenvolvimento de competências de comunicação, networking, relacionamento interpessoal e gestão de conflitos. “Hoje, a liderança não depende apenas da hierarquia, mas da capacidade de se conectar, influenciar e colaborar. A metodologia aplicada no evento foi extremamente rica justamente por proporcionar uma visão ampla, coletiva e integrada dos desafios”, concluiu.
Jefferson Conke, profissional de Recursos Humanos do Grupo Sorriso, avaliou o encontro como uma oportunidade relevante de aproximação entre empresas e instituições de ensino. “O evento foi essencial para ampliar o networking e compreender melhor os desafios enfrentados tanto pelo ambiente acadêmico quanto pelo mercado de trabalho. Foi possível perceber as dificuldades das instituições na busca por qualificação e, ao mesmo tempo, a necessidade das empresas em reconhecer e valorizar essas competências”, comentou. Para ele, a troca de experiências fortalece a construção de estratégias voltadas ao desenvolvimento dos colaboradores por meio de parcerias educacionais.
Ariane Valieri, da D2L, empresa especializada em soluções para ambientes virtuais de aprendizagem, ressaltou a importância da integração entre empresas e instituições de ensino. “O encontro foi muito produtivo e a metodologia utilizada favoreceu uma interação genuína entre todos os participantes. A troca de perspectivas foi extremamente enriquecedora”, afirmou. Segundo ela, ainda existem lacunas entre o que o mercado espera e aquilo que os alunos conseguem aplicar na prática. “As empresas podem contribuir muito para reduzir essa distância, assim como as instituições também podem apoiar o desenvolvimento das organizações. O mais importante é fortalecer essa parceria de forma contínua”, destacou.